Viúva vende livros da Chape para manter família

 

Ulrike é viúva de Anderson Paixão (Foto: Eduardo Florão)

 

Dez meses se passaram desde a queda do avião que transportava a delegação da Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana, mas muitas feridas ainda estão abertas. Principalmente em quem perdeu familiares na tragédia. Um dos exemplos é o de Ulrike Ohlweiler, viúva de Anderson Paixão, preparador físico da Chape morto no acidente. A educadora física e quase formanda em nutrição vende livros para garantir o pagamento da mensalidade dos filhos.

Em Chapecó desde quando o marido passou a trabalhar no clube, Uli, como é conhecida pelos mais próximos, hesitou em deixar a cidade. No entanto, o desenrolar da história após a tragédia a fez mudar de ideia.

Mãe de Johan e Jordi, Uli conta que até mesmo os filhos aceitaram a ideia da mudança de cidade, apesar das amizades conquistadas. O ponto chave para a tomada de decisão da família Paixão-Ohlweiler foi o jogo da Recopa Sul-Americana, entre Chapecoense e Atlético Nacional. A repercussão do duelo e a movimentação em Chapecó mexeram com todos.

 

- A gente vai embora, vamos para Florianópolis. Primeiro eles queriam ficar, mas quando teve o jogo da Recopa eles ficaram muito chateados. Eles viram que a cidade inteira estava em função daquilo e ninguém está nem aí pela gente. Aquela coisa do amor muito bonito foi para o chão e eles falaram que não queriam ficar. Embora eles tenham muitos amigos aqui, que são presentes, apoiam, mas a cidade…

Os filhos são mesmo a principal preocupação de Uli. Planejada com as despesas até o final do ano com a ajuda de amigos e da escola onde estudam os dois meninos, ela conta que a meta agora é garantir a educação de Johan e Jordi em 2018.

- O foco é esse, pagar a escola dos guris, que é o gasto mais imediato que temos. Me organizei para esse ano, por isso o ano que vem me preocupa. Pensei que esse ano a gente receberia alguma coisa do seguro da LaMia, mas não sei se isso vai acontecer. Estou tentando economizar de todas as formas, para ver se eu consigo mais um tempo. O Anderson recebeu o seguro de R$40 mil, R$20 mil para mim e R$20 mil para os filhos (o valor destinado aos filhos fica bloqueado até eles completarem 18 anos).

Uli recebeu 250 exemplares do escritor Marco Aurélio Nedel. Em uma rede social, ao anunciar a venda dos livros, a nutricionista relembrou o momento em que o marido concedeu entrevista ao autor.

- Lembro do Anderson saindo de casa para dar a entrevista para o autor deste livro. Mais uma vez ele estava feliz. Dessa vez, por fazer parte de um livro que contava a história recente da Chape, este time que ele tanto prezava. Ele tinha muito orgulho de fazer parte da evolução do clube e de sua história - diz a publicação

- Ele nos procurou e falou que a intenção dele era nos repassar uma parte dos valores da venda. Mas como ele não tinha conseguido vender, ele decidiu nos repassar os livros para a gente poder vender. Ele começou a escrever antes (do acidente) e disse que não tem intenção de ganhar dinheiro com tragédia dos outros. Ele quer nos ajudar. Ele falou que vai fazer essa tiragem e não vai fazer novamente.

 

As vendas do livro ainda não são muitas. Cerca de 70 exemplares foram comercializados. Por outro lado, Uli destaca a ajuda de muitas pessoas que se disponibilizaram em ajudar na empreitada.

- Eu vendi para as mães na escola, muitos pais me pedem, muitas mães pegam para revender. Eu deixo em alguns lugares também, na lavanderia de uma amiga, no posto da outra, na loja de móveis, na loja de roupa. Pessoas que disseram para deixar. Eu tenho a impressão de que não vende muito porque ele já tinha em vários lugares, então as pessoas já tinham comprado.

RELAÇÃO COM A CHAPECOENSE

Além da dificuldade de lidar emocionalmente com a perda do marido, a viúva de Paixão também fala sobre o afastamento com a Chapecoense, clube que, assim como o marido, aprendeu a respeitar. Ela relembra com carinho o ambiente criado pelos profissionais e dirigentes mortos na tragédia, mas explica que esperava uma retribuição por toda a dedicação de Anderson ao clube.

- São duas coisas que tem que batalhar emocionalmente. Uma é a perda, que não tem o que fazer, é um fato que tenho que lidar, é assim e ponto. A outra coisa é o abandono. O Anderson dedicou a vida dele, ele fazia tudo que podia por esse clube, da melhor forma que podia. O mínimo que eu esperava era que a contrapartida também acontecesse e não aconteceu. É um desgaste emocional, porque vai lá e bate, essa coisa... e isso vai dando um degaste - desabafa.

 

 

Livros

Fonte: GloboEsporte.com

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