Banco sem fins lucrativos beneficia famílias de baixa renda em Lages

 

Com sede em Lages, uma organização da sociedade civil e de interesse público ajuda a realizar sonhos de moradores de baixa renda sem acesso nem condições de utilizar os serviços no sistema financeiro tradicional. O casal Neuza e João Varela Pereira faz parte dessa história.

Bill Gates, magnata e criador da Microsoft, diz que “quanto menor a riqueza, menor o incentivo”. Carlos Almar da Silva, autônomo que mora em Lages, no Planalto Serrano, concorda com a afirmação. Há 20 anos, quando pensou em montar uma vulcanizadora nos fundos da casa, Silva sentiu pouca chance de ajuda no mercado financeiro. 

Para ele, um paradoxo. Desempregado e com dois filhos pequenos, não tinha renda para empreender. Encontrava-se entre aqueles que, como igualmente sugere Bill Gates, dependem de uma política econômica que beneficie também os mais pobres.

— A gente precisava fazer um empréstimo, ter um pequeno capital de giro e de suporte para trocar os cheques pré-datados. Mas a visão do banco comercial privado não compensava, pois fazia exigências que a gente não tinha como responder — recorda.

Por sorte, diz, foi informado que existia na cidade um “banco que não era bem banco”. 

Trata-se do que é hoje uma Organização da Sociedade Civil e de Interesse Público (Oscip) de microcrédito. Iniciada em 1998, como Banco da Mulher, e por uma iniciativa da Câmara da Mulher Empresária, da Associação Comercial e Industrial de Lages, a entidade tinha como missão ser uma alternativa para pequenos negócios. Hoje, é muito maior que isso. O acesso aos serviços financeiros que possibilita se torna algo essencial para o desenvolvimento econômico também do município. Funciona como uma resposta à exclusão do mercado financeiro, já que as pessoas desta camada social não costumam oferecer as garantias exigidas pelas instituições que dominam o mercado.

O que faz o Banco da Família não é exclusividade. O governo exige que as organizações destinem recursos para o microcrédito. Existe até uma lei do Ministério do Trabalho que obriga instituições financeiras a destinar 2% dos depósitos compulsórios (dinheiro que fica recolhido no Banco Central sem remuneração) à linha. 

Silva não sabia, mas a tal organização se baseava no conceito de assistência financeira por pequenos valores. A inspiração vinha do economista indiano Muhammad Yunus, que em 2006 ganhou o Prêmio Nobel da Paz, por popularizar o conceito no mundo a partir de Bangladesh, ainda década de 1970.

 

A placa com o nome “Pelego Indústria e Comércio Artefatos Ltda”, na frente da residência, no bairro Santa Helena indica que ali é feita uma atividade que faz parte da cultura campeira. Mas bonito mesmo é ver a satisfação que o trabalho causa no proprietário:

– Eu tenho orgulho de ser um empresário que lida com pelegos – diz Dirceu Antônio Pinto de Lima, 56 anos, há 32 anos na atividade.

Tanto prazer que, em sinal de respeito, o artesão chega a tirar o chapéu da cabeça. É uma reverência ao que considera “coisa sagrada”. Nascido em Anita Garibaldi, ponto de encontro de povoadores paulistas e gaúchos e mais tarde passagem de tropeiros vindos dos vizinhos Estados do Rio Grande do Sul e do Paraná, Dirceu Antônio se mudou para Lages com 21 anos. Criado em uma família pobre e com muitos filhos, cedo foi alertado pelo pai:

“Rapaz, quem ficar na agricultura vai ter muita dificuldade na vida”.

Não ficou. Mudou-se para Lages, onde formou família e por 16 anos foi empregado em uma selaria. Até apostar na vida de autônomo.

– O pobre tem grande dificuldade para abrir um negócio. Primeiro, tem que ser uma coisa que entenda. Depois, que não comprometa a vida da família – argumenta.

No início dos trabalhos, teve que recorrer ao microcrédito. Inicialmente, usou o dinheiro na construção de um galpão e na compra de equipamentos. Depois, para adquirir o produto in natura que compra em um curtume.Encostado em uma pilha de pelegos, o artesão recorda o quanto precisou se superar, mas hoje se orgulha do que faz.

– Para dizer a verdade, gente simples tem até vergonha de entrar num banco.

Foi no período de embaraço que percebeu uma coisa: bancos comerciais não têm agências nas periferias.

Dirceu Antônio encarou a timidez. A questão era achar algo que o ajudasse, atendesse 
as reais necessidades. Mas não virasse um problema maior.

– Eu não queria dar calote, mas também não podia ser explorado.

Certo dia, pensava como fazer para investir no comércio quando foi informado sobre o Banco da Mulher (atualmente extinto no país). Foi conhecer, tornou-se cliente e mantém o crédito em dia. Se necessário, recorre. Mas sempre lembrando o que dizem as agentes de crédito: é preciso planejar para não dar o passo maior do que a perna.

As máquinas – uma para limpar a lã, e outra para a lavação, com capacidade para 100 pelegos por hora – foram feitas pelo próprio artesão. Dirceu Antônio trabalha sozinho e tem uma produção considerada grande, de 300 a 350 peças por mês. Unidades ou lotes são comercializados com selarias de Lages e pecuárias de fora, como do Paraná e São Paulo, que compram o produto na porta de casa.

Quando começou a lidar com pelegos, lembra que o couro de ovelha ou de carneiro 
com lã era usado quase que unicamente nos arreios do cavalo, para tornar mais macio 
o assento do cavaleiro. Hoje, o produto ganhou espaço e faz parte de diferentes estilos 
de decoração.

 

 

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Fonte: Diário Catarinense

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