Unicamp confirma paciente na fila de transplante, após usar kit covid

O Hospital das Clínicas, da Unicamp, em Campinas (SP), confirmou na última terça-feira (23), que um paciente de 50 anos está com hepatite medicamentosa e foi na fila de transplante de fígado, devido ao uso dos medicamentos de tratamento precoce contra a covid-19.

O chamado kit covid, que reúne medicamentos sem eficácia contra a doença, mas que continua sendo prescrito por alguns médicos e propagandeado pelo presidente Jair Bolsonaro, pode ter levado outros quatro pacientes do Hospital da Clínicas de São Paulo a precisar da doação de um fígado. Além disso, os remédios estão sendo apontados como causa de ao menos três mortes por hepatite, segundo médicos ouvidos pelo Estadão.

Hemorragias, insuficiência renal e arritmias também estão sendo observadas por profissionais de saúde entre pessoas que fizeram uso desse grupo de drogas, que incluem hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e anticoagulantes. O aumento relatado por médicos de pacientes que chegam ao pronto-socorro com algum efeito relacionado ao uso desses remédios coincide com o agravamento da pandemia.

Pele amarelada

Quatro deles foram atendidos no Hospital das Clínicas da USP e o outro no HC da Unicamp. "Eles chegam com pele amarelada e com histórico de uso de ivermectina e antibióticos. Quando fazemos os exames no fígado, vemos lesões compatíveis com hepatite medicamentosa. Vemos que esses remédios destruíram os dutos biliares, que é por onde a bile passa para ser eliminada no intestino", diz Luiz Carneiro D'Albuquerque, chefe de transplantes de órgãos abdominais do HC-USP e professor da universidade. Sem esses dutos, explica ele, substâncias que podem ser tóxicas ficam na circulação sanguínea, favorecendo quadros infecciosos graves. "O nível normal de bilirrubina é de 0,8 a 1. Um dos pacientes está com mais de 40", diz ele.

 

D'Albuquerque conta que, dos quatro pacientes colocados na fila do transplante no HC, dois tiveram doença aguda e morreram antes da operação.

"É uma combinação de altas dosagens com a interação de vários medicamentos. A substância desencadeia um processo em que a célula ataca outros células, levando a fibroses, que causam a destruição dos dutos biliares", diz Ilka Boin, professora da Unidade de Transplantes Hepáticos do Hospital das Clínicas da Unicamp, onde um paciente aguarda transplante.

Os dois especialistas explicam que as biópsias do fígado desses pacientes evidenciam que os casos são de origem medicamentosa e não complicações do próprio coronavírus. "A covid pode atacar o órgão, mas de uma forma diferente. Ela causa pequenos trombos (coágulos) nos vasos. Esse padrão que encontramos é de lesão por medicamentos", diz Ilka.

Ao procurar um serviço de saúde, o homem recebeu omeprazol para o alívio dos sintomas e acabou desenvolvendo um quadro raro de insuficiência renal associada ao medicamento. "O omeprazol é uma medicação boa, tem várias indicações, mas existe uma complicação rara que pode acontecer chamada nefrite intersticial aguda, que é como se fosse uma alergia nos rins", conta.

O paciente precisou ser internado para fazer algumas sessões de diálise e se recuperou. "Mas foi uma grande dificuldade, não tinha leito. É difícil esse quadro em uma situação de colapso", afirma.

O outro caso é de um paciente que recebeu prescrição de anticoagulantes como tratamento precoce para a covid e acabou tendo uma hemorragia gástrica. O homem também precisou ser hospitalizado, mas se recuperou. Ele tinha um quadro de úlcera não diagnosticado e a medicação acabou agravando o problema.

"A partir do momento que essas medicações passam a ser usadas por milhões de pessoas, esses efeitos, mesmo que raros, começam a aparecer com mais frequência. Quando a gente prescreve um medicamento é porque os benefícios são maiores que os riscos. Se esses remédios não têm nenhum benefício contra a covid-19, todo efeito colateral foi em vão", afirma.

O médico Gerson Salvador também atendeu na última semana casos de efeitos colaterais de anticoagulantes. "Era uma paciente de 40 anos com covid confirmada usando dose alta do anticoagulante enoxaparina e outros medicamentos em casa. Veio com piora respiratória e com sangramento de origem pulmonar", conta.

Ele também relata casos de pacientes que, por estarem tomando as drogas do kit covid e julgarem estar protegidos de um agravamento da doença, demoram muito a procurar um hospital e surgem em estado gravíssimo. "Em um dos últimos plantões, atendi um paciente que estava tomando cloroquina e usando oxigênio em casa. Ele chegou azul. Tive de intubar na hora", diz. / F.C.

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Fonte: R7

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